Índice de assuntos deste post:

Duas décadas de Observatório

Neste mês de abril o Observatório da Imprensa completou 20 anos de existência. Criado inicialmente para o ambiente web em 1996, por professores e alunos de comunicação do Labjor (Laboratório Avançado de Jornalismo) da Unicamp, dois anos mais tarde o projeto chegou também à televisão. Gerado através da TV Brasil e retransmitido pelas TVs Educativas do país, o OI logo alcançou um público maior e viveu momentos áureos, com entrevistas e debates de alto nível conduzidos pelo lendário jornalista Alberto Dines. Paralelo a isso, o OI seguiu mantendo seu website e aprofundando nesta mídia as análises e discussões que o tempo de TV não permitia. Anos depois estreou um programa radiofônico. Antes disso também teve uma breve e profícua versão em papel, que foi cancelada no auge da crise do governo FHC porque a multinacional que patrocinava a edição impressa teve que cortar gastos. O OI segue firme na web, rádio e TV, embora seguidamente enfrente boicotes da Fundação Padre Anchieta, por exemplo, que controla a TV Cultura e é controlada pelo governo do Estado de São Paulo. Fiel ao slogan “Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito”, que é repetido por Dines ao final de cada edição televisiva, esses 20 anos de Observatório da Imprensa ensinaram muita coisa a um número imensurável de consumidores de notícia. Por outro lado, a influência do OI nos alunos de comunicação parece ser mínima. E sobre jornalistas ouso dizer que o impacto foi zero. Ou qualquer coisa próxima disso. O que é uma lástima.

Manual da Redação I

Fábio Pannunzio + Valteno de Oliveira

Se alguém se prestar a contar quantas vezes os jornalistas Fábio Pannunzio e Valteno de Oliveira (Band) usam a expressão desesperados para se referir a qualquer ação de governo ou institucional do Partido dos Trabalhadores, vai se cansar. Segundo eles, basicamente qualquer coisa que Dilma ou PT façam são “atos de desespero”. Se Dilma receber apoio de artistas e intelectuais no Palácio do Planalto, é um ato de desespero do governo. Se Lula aparecer em alguma sacada abanando para uma multidão, é um ato de desespero de Lula. Se Dilma e Lula se encontrarem para conversar, é um ato de desespero do PT. Tudo são atos de desespero, de acordo com os jornalistas da Band. Em contrapartida, a mesma expressão nunca é usada por Pannunzio nem por Valteno para descrever movimentos da oposição ou de pessoas ligadas a ela (como muitos jornalistas, diga-se). Deve ser o mesmo problema que impõe à imprensa usar a expressão “delação premiada” quando envolve algum personagem do PT, e “acordo de leniência” quando envolve alguém da oposição. Problema também verificado na singela distinção entre “formação de quadrilha” (para petistas) e “cartel” (para não-petistas). O jornalismo brasileiro parece ter herdado do Judiciário brasileiro essa estranha inclinação para dar tratamento diferente a personagens diferentes. Mesmo que eles façam coisas semelhantes ou rigorosamente iguais.

Manual da Redação II

Dora Kramer

A jornalista Dora Kramer escreveu em sua coluna do jornal Estadão nesta sexta-feira (29/4) uma fervorosa defesa de Janaína Paschoal, a advogada e professora que deu uma aula magna de descarrego em frente às arcadas da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP). Logo no primeiro parágrafo do texto, a jornalista coloca o seguinte raciocínio:

A tentativa de enquadrá-la como “louca” é a arma dos que não conseguem lhe rebater os argumentos.

Dora Kramer, jornalista, 29/04/2016

Primeiro que os argumentos da professora possuída já foram rebatidos por outros juristas. Na verdade até Randolfe Rodrigues (Rede) demonstrou a fragilidade da sustentação de Janaína. O senador apresentou decretos de créditos suplementares e perguntou à conspícua advogada o que ela achava. Janaína afirmou que créditos suplementares sem autorização do Congresso Nacional configuram crime de responsabilidade e devem ser punidos com impeachment. Na sequência, Randolfe informou à confusa professora que os créditos em questão eram de autoria do vice-presidente Michel Temer – o mesmo que poucas horas antes a própria Janaína alegara não haver indícios para seu impeachment. Essa parte de argumentos está superada. Janaína Paschoal tem argumentos tão consistentes para o impeachment quanto um acadêmico que recém ingressou na faculdade de Direito. Apesar disso, todos sabem que o impeachment de Dilma está consumado: os senadores estão acuados pela imprensa e pela opinião pública, que a imprensa manipula com notória habilidade. Não há outro desfecho no horizonte neste momento. Portanto, o sentido jornalístico da frase de Dora Kramer é o que importa. E a frase é um exemplo típico de inversão de contextos. Em contraposição, poder-se-ia dizer, por exemplo:

Jornalistas que escrevem para agradar patrões acham que tudo que publicam tem justificativa coerente. Argumentos até psicopatas têm. A questão é que falta à dona Janaína o equilíbrio esperado de uma advogada. Principalmente de uma advogada que também é professora universitária.

Entre aspas

Alberto Dines

A sociedade que aceita qualquer jornalismo não merece jornalismo melhor.

Alberto Dines, jornalista, professor universitário, biógrafo, escritor, editor e apresentador do Observatório da Imprensa

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