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Deslumbrados de Miami

Caderno DOC da edição dupla do jornal Zero Hora deste final de semana (30/4 e 01/5) traz uma extensa reportagem sobre gaúchos que foram morar nos Estados Unidos. Com foto em destaque na capa e a manchete “Eles desistiram do Brasil”, o diário da RBS apresenta uma família sorridente na ampla sacada de um apartamento quase à beira-mar, em Miami. Na edição online de ZH a matéria está intitulada “Pátria amada, Miami”. Mais clichê, impossível. Momento mais oportuno, idem. Brasileiros bem-nascidos já tinham casas e negócios em Miami desde quando os bichos falavam. Alguns moravam lá. Outros passavam temporadas inteiras. E outros iam fazer umas comprinhas enquanto aproveitavam para levar seus filhos na Disney, que fica a 380km de MIA. Mas nos últimos anos esse movimento de brasileiros na Florida (e nos EUA em geral) virou sinônimo de descontentamento com o Brasil. Ou seja, antes íamos e voltávamos correndo para o nosso exitoso e desenvolvido país; agora só queremos passagem de ida, porque o Brasil deixou de ser o paraíso que era. Pelo menos é isso que Zero Hora dá a entender. Na verdade ZH traduz em reportagem o sentimento que certos articulistas da grande imprensa insistiam há anos em suas colunas. Rodrigo Constantino, da revista Veja, é um dos baluartes da ideia de que o Brasil não tem jeito e que o negócio é investir em Miami. Se bem que agora que o PT vai deixar o governo, Constantino deve mudar de ideia e passar a defender que o Brasil é o país do futuro, que Miami é só para se passar férias e fazer compras. Zero Hora e demais jornais em breve também vão substituir as capas catastróficas e os avisos de “CORRAM PARA AS MONTANHAS” por sugestões empolgadas sobre como vale a pena investir por aqui. Seja para morar, trabalhar ou ter negócios. Basicamente é tudo uma questão de quem está no poder. Se não for o PT, Brasil volta a ser a maravilha que sempre foi. Segundo a imprensa brasileira, claro.

¡No estamos locos!

Protesto na Argentina

Em menos de dois meses o governo do presidente Mauricio Macri já enfrentava os primeiros protestos na Argentina. Porém nos últimos dias as críticas ganharam uma dimensão maior. Convocados por centrais sindicais e estudantis, milhares de argentinos foram às ruas de Buenos Aires para reclamar da política econômica da equipe de Macri, que eles classificam como “un gobierno para los empresarios”. Macri, ele próprio herdeiro dos negócios do pai, não haveria de fazer diferente disso. Todos os sinais, e sua própria trajetória como empresário, indicavam um homem comprometido com interesses de empresários. Mesmo assim a maioria dos argentinos o escolheu como presidente no pleito de novembro de 2015. Agora o temor dos demais está se materializando: empregos estão sendo cortados, direitos trabalhistas estão sendo podados, a anergia elétrica foi reajustada em 400% e o custo de vida está disparando na Argentina. Ao mesmo tempo que os protestos aumentam, Macri anuncia medidas que limitam a atuação de manifestantes e a cobertura da imprensa, ampliando poderes para a polícia reprimir manifestações. Não muito longe dali, brasileiros deveriam olhar com atenção para os hermanos. O governo de Michel Temer, que será empossado no tapetão, sem ter ganho no campo, está discutindo estratégias econômicas com figuras que qualquer trabalhador tem motivos de sobra para temer: Paulo Skaf (o rico presidente da FIESP, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Ronaldo Caiado (velho personagem da política brasileira, que além de latifundiário tem histórico de trabalhadores escravos nas fazendas da família), Agripino Maia (outro velho coronel, de uma família de políticos e empresários que estão para o Rio Grande do Norte como ACM estava para a Bahia), José Serra (dispensa apresentações) e outros. Nas manifestações de Buenos Aires faltou uma faixa, endereçada aos brasileiros que ajudaram a impichar Dilma Rousseff: “NÓS SOMOS VOCÊS, AMANHÔ.

Entre aspas

Cláudio Abramo

Para ser jornalista é preciso ter uma formação cultural sólida, científica ou humanística. Mas as escolas são precárias. Como dar um curso sobre algo que nem eu consigo definir direito? Trabalhei 40 anos em jornal e acho muito difícil definir o que meia dúzia de atrevidos em Brasília definem como curso de Jornalismo. Foi o que fez o patife do Gama e Silva (ministro da Justiça de Costa e Silva), que elaborou a lei [que exige diploma de Jornalismo] para tirar os comunistas dos jornais.

Cláudio Abramo (1923-1987), jornalista que promoveu transformações significativas nos jornais Estadão e Folha de S. Paulo durante a época em que foi editor-chefe de ambos

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