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Deu no jornal

Todos os dias a imprensa nacional dá sinais nítidos de estar agonizando, respirando por aparelhos. Mas nesta segunda-feira (02/5) o jornalismo brasileiro implorou por eutanásia. O diário Folha de S. Paulo transformou uma mosca em fato noticioso. E esse “fato” virou inclusive capa do jornal de maior circulação no país, com direito a uma sequência de imagens.

A mosca da Folha de S. Paulo

Provavelmente a intenção da FSP foi somente tripudiar com a situação da presidente Dilma Rousseff, que está em vias de perder o cargo conquistado nas urnas. Só que este é o tipo de coisa no jornalismo que não importa qual personagem é usado para a “criatividade” do fotojornalista (e do editor, que liberou uma coisa dessas). No lugar de Dilma poderia ter uma figura grotesca como Jair Bolsonaro. O exemplo de mau jornalismo estaria configurado da mesma forma. Há premissas que não podem ser pisoteadas em jornalismo. Relevância é uma delas. Nem que a mosca tivesse dançado tango na frente de Dilma isso seria motivo para virar capa de jornal. A menos, claro, que o jornal fosse algo como o tenebroso Notícias Populares – que colocava pessoas decapitadas, esmagadas e desfiguradas nas capas. Da Folha não se esperava tamanho apelo à irrelevância em uma capa. Mas, no fim, esta peça simboliza de forma perfeita o nível do conteúdo que o jornal produz há anos.

WhatsApp off, de novo

WhatsApp

O aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp sofreu novo bloqueio no Brasil. A medida judicial foi levada a cabo às 14h desta segunda-feira e deve perdurar por 72 horas, se não for derrubada em outra instância. O motivo é o mesmo da proibição anterior: a negativa dos diretores do Facebook (atual controlador do app) em fornecer para a Justiça dados de um usuário que é investigado por tráfico de drogas. A decisão é absolutamente esdrúxula. Atinge milhões de usuários que não têm nada a ver com a questão. Se o Judiciário brasileiro não tem autoridade para punir com multas pesadas e impor outras medidas a uma empresa que descumpre ordem judicial, sem penalizar os usuários dessa empresa, como as pessoas querem que este poder seja canalizador de justiça em sentido amplo? Ultrapassando a esfera judicial há outro problema diante da proibição do WhatsApp. Alguns sites de tecnologia, e alguns usuários que indicam o que não entendem só porque um suposto entendido indicou, estão estimulando o uso de VPN (rede virtual privada) para burlar o bloqueio. De fato funciona, porque o bloqueio é somente no Brasil e uma VPN faz o tráfego de dados passar por outro país. Porém os mesmos sites de tecnologia estão sendo muito discretos nos alertas sobre o uso de VPN. Uma coisa é uma VPN paga, de serviços consagrados no mundo, que são usados por muitas empresas de porte para proteger dados sigilosos. Outra coisa são essas VPNs oferecidas na Play Store, por exemplo. Ninguém sabe por onde esses dados passam e nem o que é feito com as informações trafegadas nesses serviços oferecidos para smartphones. E tem um agravante: nesse caso a maioria dos serviços gratuitos se sustenta pela publicidade embutida no app. Pode parecer justo aceitar propagandas em detrimento de pagamento, mas esses apps de VPN são justamente alguns dos que mais exageram no envio de publicidade. Em um pequeno teste feito por volta das 15h30 de hoje, um dos apps de VPN para Android mais utilizados no mundo trafegou 18 MB de dados em 20 minutos. Se isso correspondesse a uso efetivo (usuário navegando em sites e trocando mensagens via WhatsApp), poderia fazer sentido. Mas o app em questão foi setado para atuar apenas no WhatsApp. E nenhuma mensagem foi trocada no WhatsApp durante os 20 minutos, porque todos os meus contatos já estavam limitados pelo bloqueio. Mesmo assim 18 megabytes de propagandas foram baixadas via app. Esse teste foi feito em uma rede wi-fi. Se estivesse em uma rede móvel poderia ser consumido parte significativa da franquia de dados dos (péssimos) serviços 3G/4G do Brasil. Ou seja, cuidado com a medida escolhida para contornar o bloqueio do WhatsApp. Mais sensato é instalar um segundo app de mensagens no telefone, mesmo que seja usado somente quando o WhatsApp estiver fora do ar. Por já ter testado durante muito tempo Viber, Line, WeChat, Tango, KakaoTalk, Wire, Signal e outros, recomendo enfaticamente o Telegram. Hoje não há nada mais leve, estável e seguro do que o já consagrado app russo. Além do recurso de chat secreto, que pode autodestruir mensagens e anexos nos mesmos moldes do Snapchat, o Telegram também tem a vantagem de ter versões web e desktop (para Windows, Mac e Linux) que independem sequer do telefone ligado. Se os seus contatos ainda não estão no Telegram, leve-os.

Entre aspas

Alberto Dines

Se os jovens não se acostumarem com a leitura dos adultos, quando deixarão de ser jovens?

Alberto Dines, jornalista, professor universitário, biógrafo, escritor, editor e apresentador do Observatório da Imprensa

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