Índice de assuntos deste post:

Quid pro quo

O deputado Flávio Augusto da Silva (PSB-SP) encaminhou um projeto de lei à Câmara Federal que diz muito sobre as casas legislativas do nosso país. O PL 4380/2016 pretende impedir que pessoas embriagadas ou alteradas por substâncias psicoativas (drogas lícitas e ilícitas) sentem em assento adjacente ao do condutor de veículos automotores. O eminente deputado argumenta que um passageiro nessas condições pode tirar a atenção do motorista e/ou interferir deliberadamente na condução do automóvel. Flávio Augusto, conhecido como Flavinho na Câmara dos Deputados, cita que o passageiro pode ter “ânsia de vômito” (sic) e esse evento acabar distraindo o condutor de um veículo, podendo resultar em acidente de trânsito. A proposição é contraproducente. Especialmente em um país onde o que mais há são pessoas embriagadas ao volante, que atropelam, matam e não são presas – porque nossa legislação permite que elas respondam a crimes de trânsito em liberdade. O deputado Flavinho deve ter certa ciência da bobagem que está propondo. Tanto que faz questão de frisar que no mundo inteiro somente dois países adotam essa legislação: Macedônia e Bósnia-Herzegovina. Talvez tentando confundir, o parlamentar acrescenta que países como Estados Unidos e Canadá têm leis mais rigorosas ainda. Isso é verdade. Só que nesses países ninguém atropela, mata e vai para casa tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. EUA e Canadá, antes de pensarem em punir passageiros, tiveram a preocupação de garantir que motoristas infratores não restassem impunes. Não é o nosso caso.

Unilateralidade 10×0 pluralidade

Moisés Mendes

O jornalista Moisés Mendes, que era uma das raras vozes dissonantes em meio ao discurso padronizado dos profissionais da RBS, pediu desligamento do grupo no dia 29 de fevereiro. Embora muitos tivessem notado a ausência do jornalista, a notícia só se tornou pública no final de março. Moisés, que já tinha 27 anos de casa, foi mais uma vítima do fascismo moderno fomentado por colegas de profissão. Sua coluna diária era muito lida por apresentar a única opinião divergente dentro da Redação do jornal Zero Hora. Ao mesmo tempo Moisés era achincalhado pelo leitor-médio de ZH, que adota sem contestar a linha de pensamento proposta pelo Grupo RBS. Em meio ao acirramento dos ânimos de parte da população contra o governo federal, Moisés passou a ser identificado como petista apenas por apresentar outra visão sobre os acontecimentos nacionais. Choviam e-mails e telefonemas na Redação de ZH criticando acintosamente o jornalista. Alguns chegavam a exigir sua deposição, em uma demonstração nítida de que democracia só vale quando é a favor da opinião dessas pessoas. Moisés primeiro perdeu a regularidade de sua coluna na Zero Hora, tendo que dividir espaço com outro articulista. Na sequência foi informado pela chefia de que perderia também a coluna de domingo, justamente a mais lida, sob pretexto de uma reforma editorial que condensou as edições de sábado e domingo do jornal em uma só. Argumento inconsistente. Se quisesse, a direção da RBS teria garantido o espaço de Moisés – que, como ele fez questão de mencionar em seu Facebook, não era exatamente dele, mas dos leitores de ZH. Irredutível, o Grupo RBS terminou por se desfazer do único profissional que desdizia a imagem da casa. Dias depois Marcelo Rech, o cínico vice-presidente editorial da RBS, anunciou em nota que o grupo estava comprometido em repor a saída de Moisés Mendes com um articulista que tivesse perfil similar. Como entre discurso e prática há um longo e penoso caminho, quem ficou no lugar de Moisés Mendes foi Denis Lerrer Rosenfield, um professor de Filosofia que é tão “plural” quanto o fundamentalista Percival Puggina.

Recado do leitor

Sede da Zero Hora

Espaço do leitor na edição de hoje (03/5) do jornal Zero Hora traz o seguinte e singelo recado:

Escrevo em nome do que acredito seria mais democrático, embora não saiba se isto existe nos dias atuais. O deus David Coimbra é tão calçado que escreve uma crônica em que tem a audácia de considerar, antes do julgamento, a presidente exonerada. O genial Verissimo usa uma metáfora com a miss bumbum para demonstrar, não aos néscios, o que pensa da situação à qual me refiro. Listas com os ocupantes do “futuro governo Temer” corrupto, não julgado, ocupam as páginas do jornal. Na coluna do leitor, só e-mails favoráveis ao impeachment. Aprendi outro conceito de jornalismo, entre os quais apresentar todos os fatos, sejam de que ideologia forem, para que o povo decida, com conhecimento do que realmente acontece no país.

Vera Maria Leo Miotto, aposentada
Porto Alegre

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