Índice de assuntos deste post:

O editorial histórico do JB

Editorial de ontem (03/5) do Jornal do Brasil é um daqueles raros exemplos no jornalismo brasileiro atual que merece e precisa ser exaltado [ver Os indignados da boca para fora, e os desesperados da boca para o estômago]. A opinião institucional do JB coloca uma pedra em cima da falsa indignação coletiva que foi despertada em 2013, resgatando alguns casos célebres de corrupção em nosso país que permanecem impunes até hoje e que jamais geraram algum movimento de revolta. Jornal do Brasil foi o melhor jornal brasileiro até ser adquirido pelo empresário Nelson Tanure, aquele mesmo que o agora paladino da moralidade Ricardo Boechat1 (Band) ajudou em uma disputa bilionária no setor das teles em 2001, quando ainda trabalhava para o grupo Globo. Pela Redação do JB já passaram nomes como Alberto Dines, Zuenir Ventura, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Ruy Barbosa, Antonio Callado e outros. Infelizmente o jornal vinha decaindo ano após ano e deixou de circular em papel desde 2010, permanecendo apenas sua versão online. Com esse editorial histórico, na contramão do discurso uno ensaiado pelas demais Redações, o Jornal do Brasil mostra que fazer jornalismo imparcial é basicamente uma questão de disposição moral.

A graça do Estadão

Dilma Rousseff "em chamas"

Enquanto isso… Faz apenas dois dias que a Folha de S. Paulo transformou uma mosca em fato noticioso, com finalidade única de zombar de Dilma Rousseff. Hoje (04/5) foi a vez do jornal O Estado de São Paulo fazer graça no melhor estilo revista Veja: recorrendo à criatividade pérfida. Para mostrar uma presidente “em chamas”, o fotógrafo Dida Sampaio (Agência Estado) posicionou-se à distância com sua teleobjetiva e esperou o momento exato em que o rosto de Dilma ficou sobreposto pelas chamas da pira olímpica. Veja, claro, também fez questão de divulgar uma foto da presidente “ardendo em chamas”. Só que a imagem da Veja é a cara da própria revista: parece ter sido feita com um smartphone Xing Ling comprado na Rua 25 de Março. Não é a primeira vez que criatividade de gosto duvidoso é usada contra Dilma. Para quem não lembra, a presidente já foi retratada com uma espada transpassada no corpo2 durante evento na Academia Militar das Agulhas Negras (Estadão, 2012), com uma metralhadora de tanque de guerra apontada para a cabeça3 durante desfile militar de 7 de Setembro (Correio Braziliense, 2014), e outras pérolas do fotojornalismo brasileiro. Já Ricardo Noblat, jornalista que deu veracidade à história falsa da brasileira agredida na Suiça4, dispensou fotógrafos e recorreu a um arte-finalista para colocar a cabeça de Dilma em uma bandeja5 (O Globo, 2015). Nesse campo das sugestões veladas de assassinato ninguém supera a Veja. Como em todas as semanas a revista produz alguma obra de arte, nem é necessário elencá-las: basta pegar qualquer edição deste semanário desde o dia 01/01/2003.

Entre aspas

Alberto Dines

A sociedade é maior do que o mercado. O leitor não é consumidor, mas cidadão. Jornalismo é serviço público, não espetáculo.

Alberto Dines, jornalista, professor universitário, biógrafo, escritor, editor e apresentador do Observatório da Imprensa

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