Índice de assuntos deste post:

Deu no jornal I

Jornais nacionais deste sábado (14/5) amanheceram esbanjando otimismo e oferecendo instruções de como os brasileiros devem se comportar durante o Governo Temer. Reproduzem o discurso de posse de Michel Temer (PMDB), onde ele pediu união, compreensão e colaboração. O “Plano Temer” mereceu até infográficos caprichados em alguns veículos, para haver certeza de que a população vai entender o recado. Só faltou vinhetas dizendo “O novo Brasil depende de você!”, com alguma jovem modelo branca, loira e de olhos azuis enrolada na bandeira nacional. A imprensa brasileira já deixou claro como vai se comportar perante o novo governo. Não haverá nem de longe a pressão e o patrulhamento exercidos nos 13 anos de PT. Uma prova disso é a repetição generosa do termo “governo de salvação nacional” por todos os jornais. Mas Zero Hora se superou. Depois de inúmeras capas em sequência onde a cor preta foi predominante, hoje ZH apostou em verde e amarelo para transmitir uma imagem onírica de reconstrução nacional. Os tempos mudam.

Deu no jornal II

The Guardian

Enquanto isso a imprensa internacional, aquela que não tem compromisso com ninguém aqui no Brasil, segue sem entender como que uma presidente foi afastada por fazer aquilo que os presidentes anteriores também fizeram. O jornal americano The New York Times demonstrou perplexidade e temor com o futuro do Brasil em seu editorial de ontem (13/5). O jornal britânico The Guardian foi mais longe. Para eles é golpe da velha elite. Mas o Jornal Nacional, que adora pinçar na imprensa internacional frases fora de contexto que se encaixam na mensagem que a Globo quer transmitir, não mencionou nada disso na edição de ontem. Essa é a única garantia que o povo brasileiro tem: diante da omissão e complacência da imprensa nacional com partidos de Direita, as perguntas e a pressão devem vir da imprensa internacional.

Deu no jornal III

ZH: homeopatia

Edição de ontem do jornal Zero Hora também trazia uma matéria polêmica sobre homeopatia. Há coisas que alguns jornalistas têm dificuldade para entender. Incompatibilidade temporal de certos assuntos é uma delas. Na verdade o nome apropriado para isso seria anacronismo, já que dar espaço para homeopatia em pleno século XXI é algo totalmente em desacordo com o nível de Medicina que temos hoje. Mas assim como fazem com religião, jornais brasileiros dão relevância à homeopatia somente porque avaliam que há público para isso. Para eles não importa quão esdrúxula é a ideia de água açucarada curar doenças. Assim como consideram questão menor o fato de não haver nenhuma evidência plausível da existência de um Deus. O que importa é que há pessoas que acreditam em homeopatia e em Deus, e para isso eles precisam adular essas pessoas. Fazem isso com reportagens, onde empregam a premissa jornalística de oferecer espaço para que dois (ou mais) pontos de vista sejam confrontados. O problema é que nesse caso o ponto de vista da homeopatia não reúne sequer os requisitos mínimos para que seja considerado um assunto sério. Homeopatia não é Ciência, é crença. Sendo crença, não pode ser cogitada como tratamento alternativo a medicamentos alopáticos. O princípio pseudocientífico da homeopatia fere tudo aquilo que é consagrado como método científico. Dar espaço a isso, mesmo fora do ambiente acadêmico, é uma afronta à Ciência e à Medicina.

Entre aspas

Alberto Dines

Jornalistas alarmados produzem manchetes alarmistas. Fariam sucesso criando peças para o teatro de terror.

Alberto Dines, jornalista, professor universitário, biógrafo, escritor, editor e apresentador do Observatório da Imprensa

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