No início da madrugada de quinta-feira (19/5) um Airbus A320 da EgyptAir desapareceu dos radares sobre o Mar Mediterrâneo, quando estava a 240km do Egito. O voo MS804 tinha 66 pessoas a bordo e ia de Paris para o Cairo.

Logo que amanheceu a imprensa tentou abastecer os telejornais do dia com matérias preparadas às pressas. E como sempre acontece em eventos dessa natureza, sobraram equívocos e especulações sem fundamento.

Um resumo não-sensacionalista do acidente pode ser lido e acompanhado no blog Aviões e Músicas, que atualizará informações relevantes na medida em que estas forem sendo disponibilizadas pelos órgãos oficiais.

Missão impossível

O Jornal Nacional do dia seguinte (20/5) conseguiu ultrapassar o besteirol tradicional veiculando uma informação sem pé nem cabeça. Enquanto exibia uma matéria sobre as buscas ao voo MS804, com imagens internas de uma provável aeronave C-130 Hercules em operação de avistamento, a locução do noticiário de maior audiência no Brasil dizia: “O avião cargueiro já se abre (sic) para recolher destroços”…

JN 20-05-2016
Reprodução de trecho da reportagem do JN

Abaixo da aeronave é possível ver um vasto oceano, presumivelmente o Mar Mediterrâneo. Daí emerge a inevitável pergunta: por que o jornalista Pedro Vedova, correspondente da Globo em Londres, concluiu que aquele avião, mostrado em pleno voo na reportagem, poderia pousar no oceano ou parar no ar para ser carregado com destroços do MS804?

Não é uma questão de saber detalhes sobre aviões ou sobre procedimentos aeronáuticos: é raciocínio básico. São perguntas que jornalistas devem fazer a si mesmos antes de veicular uma informação.

Quando acidentes aeronáuticos acontecem, imediatamente são acionadas aeronaves do esquadrão SAR (busca e salvamento) do país em cujo território ou domínio marítimo ocorreu o evento. No caso de águas internacionais, o país da companhia aérea é quem geralmente coordena as buscas. Outros países interessados também podem colaborar, seja por proximidade com o local da queda, seja pela nacionalidade de parte dos passageiros.

O papel de cada um

Tanto aviões quanto helicópteros são utilizados nas buscas. Mas por uma razão deveras óbvia, aviões normalmente são os primeiros a chegar em locais de acidentes distantes de centros urbanos. Especialmente em alto mar. São eles que fazem o avistamento preliminar em busca de sobreviventes e/ou destroços, e repassam as coordenadas da localização às embarcações que estão em deslocamento para a área.

C-130 Hercules
C-130 Hercules da Força Aérea Americana

Havendo sobreviventes no oceano, o estado deles e as condições do mar vão determinar a forma de resgate. Se houver condição favorável e tempo hábil para aproximação de embarcações, são elas que via de regra vão resgatar todos os sobreviventes. Se houver feridos graves ou com sinais de hipotemia ou desidratação o resgate poderá ser tentado por helicóptero.

Dependendo do ponto do oceano, helicópteros só poderão chegar ao local de um acidente partindo de embarcações. Por isso a atuação de aeronaves de asa rotativa em resgates no mar pode ficar condicionada à aproximação de frotas navais na área do evento.

Já aviões não resgatam pessoas em alto mar. E muito menos destroços. Por três razões muito simples: 1) não há onde pousar; 2) não há como parar no ar; e, 3) não há por que carregar destroços em um avião. As funções primárias de aviões em operações de busca e salvamento são avistamento, avaliação preliminar da situação, mapeamento das coordenadas geográficas e lançamento de dispositivos de sinalização na água.

O lançamento de suprimentos e equipamentos de emergência através de aviões no oceano vai depender das condições no local. A chance de acertar o alvo é mais limitada por conta da velocidade que aviões se deslocam. Devido a vento, ondas e correntes marítimas, em alto mar 1 metro de distância pode significar carga perdida ou sobreviventes sem condições de alcançá-la.

Recolhimento de destroços de acidentes aeronáuticos em alto mar compete fundamentalmente a embarcações. Em casos extremos, corpos e pequenos objetos podem ser recolhidos por helicópteros antes que afundem.

Associação indevida

A reportagem de sexta-feira do JN cita ainda outra informação de maneira leviana e irresponsável: um superaquecimento que supostamente ocorreu em um dos motores do mesmo A320 em 2013, que teria provocado uma aterrissagem de emergência na ocasião.

JN 20-05-2016
Pedro Vedova, correspondente da Globo em Londres

Não há registro desse evento. Mesmo que tenha ocorrido, o que isso tem a ver com o acidente em questão?

Grandes aeronaves comerciais, e motores de forma bem especial, passam por inspeções e checks regulares. Se algum problema for se repetir em um motor específico, é mais provável isso ocorrer em um intervalo de horas ou dias, não de 3 anos. A menção a isso parece temporal e descabida. Serve apenas para confundir, não para informar.

Pautados por um blog

Na edição de sábado (21/5) do Jornal Nacional, uma surpresa positiva: a matéria foi um pouco mais cuidadosa do que no dia anterior e obrigou a TV Globo a citar um blog como fonte de informação de seu principal telejornal, embora tenha caprichosamente evitado utilizar a palavra blog.

A reportagem do JN diz textualmente:

O site Aviation Herald, um dos mais respeitados do mundo, teve acesso às informações transmitidas automaticamente a um sistema de dados e afirmou que sete sinais de fumaça foram disparados em três minutos, incluindo num (sic) banheiro e num (sic) compartimento de aparelhos eletrônicos embaixo da cabine dos pilotos.

JN 21-05-2016
The Aviation Herald no Jornal Nacional

Na verdade dá para ver claramente na imagem destacada pelo próprio JN que somente duas das sete mensagens dizem respeito à fumaça. As demais são outros tipos de alertas.

O Jornal Nacional se refere às mensagens ACARS transmitidas da aeronave para o setor de manutenção da EgyptAir antes de sumir dos radares. Simon Hradecky, editor do blog Aviation Herald, tinha divulgado em primeira mão essas mensagens, antes de qualquer órgão de imprensa. Ou seja, furou todos os grupos de comunicação e todas as agências de notícia do mundo.

Além da importância da referência em si para a comunidade de aviação, que acompanha há anos o trabalho sério do austríaco Simon, a citação de um blog como fonte confiável para a segunda maior emissora de TV do planeta é um avanço para o próprio jornalismo. Ainda que a Globo tenha infantilmente omitido se tratar de um blog.

Descobrindo os blogs

Anteriormente desprezados e ironizados pelas Redações dos principais jornais do Brasil, os blogs especializados passaram a fazer parte cada vez mais frequente de matérias jornalísticas produzidas por veículos brasileiros.

O único problema é que na maioria das vezes os jornalistas daqui omitem que a fonte primária da informação é um blog. Talvez para tentar conservar a aura de superioridade e intocabilidade que nossa imprensa ainda julga ter.

Isso está cada vez mais difícil de sustentar, uma vez que certas informações são encontradas somente em blogs e os erros de jornalistas prepotentes aumentam em escala industrial.

Já que a Globo finalmente descobriu o Aviation Herald, sugiro que os demais veículos de comunicação também anotem este endereço: Aviões e Músicas.

Joselito Sousa, editor do AeM, também pode socorrer jornalistas antes que eles deixem informações grotescas sobre aviação gravadas para a eternidade nos arquivos dos jornais brasileiros.

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