Foi na semana passada, mas merece registro. Em sua coluna do dia 18/5 no Estadão, intitulada “Bye, bye, TV Brasil“, Dora Kramer manifestou regozijo com a possibilidade da TV Brasil ser extinta pelo Governo Temer.

Para a jornalista, que também colabora com a Band News FM, a TV Brasil “nunca passou de divulgadora de panfletos petistas”.

Dora mistura ignorância com maledicência.

Primeiro, a TV Brasil é uma das poucas emissoras que tem realizado alguma coisa próxima do que se convencionou chamar de jornalismo no Brasil.

Segundo, além de uma grande variedade de programas, a TV Brasil destina em torno de 20% de sua programação para produções audiovisuais independentes, nacionais.

Terceiro, é uma meia verdade dizer que a TV Brasil foi criada em 2008. De fato ela foi constituída juridicamente no final de 2007. Mas a emissora nada mais é do que a continuação da TVE Brasil (TV Educativa do Rio de Janeiro), com um novo CNPJ e um novo gestor. Tanto é que boa parte dos programas que eram gerados pela TVE Brasil migraram para a TV Brasil.

Quarto, se a TV Brasil for extinta, alguns programas essenciais podem sumir junto com ela. Um deles é o Observatório da Imprensa, que já está no ar há 18 anos (começou sendo gerado pela antiga TVE Brasil e depois passou para responsabilidade da TV Brasil). É graças ao OI que pessoas comuns podem identificar jornalistas medíocres.

Coluna de Dora Kramer

Se Dora Kramer tivesse dito que o canal NBR era divulgador de panfletos petistas, vá lá. Afinal essa é a emissora oficial do governo. Mas resumir logo a TV Brasil a essa finalidade é mais do que ignorância.

A jornalista deveria procurar se informar. A TV Brasil fomenta informação e cultura. Não se destina a produzir programas de auditório para parvos, como certas emissoras que são consideradas modelo de jornalismo no Brasil.

Se a TV Brasil é “divulgadora de panfletos petistas”, o que dizer da TV Cultura em SP – controlada a bel-prazer pelo governo do PSDB há 21 anos?

Várias vezes a Fundação Padre Anchieta jogou o programa Observatório da Imprensa para horários em que só empresários com a vida ganha poderiam assistí-lo.1 Ou seja, basicamente o público que dá audiência para o Jornal da Globo. Agora, aparentemente, o OI foi até excluído da programação da TV Cultura. Pelo menos não está constando na grade da emissora.

Isso é que deveria preocupar jornalistas comprometidos com jornalismo.

Enquanto Dora Kramer dá tchau para a TV Brasil, o Brasil vai dizendo adeus para o jornalismo.

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