São fatos sem relevância jornalística. Mas já que Zero Hora dedicou espaço para isso, deveria fazê-lo com um mínimo de informações corretas e úteis.

A cobra

A primeira parte de uma matéria na ZH desta terça-feira (31/5) dizia que uma cobra tinha invadido uma quadra de tênis antes da partida do brasileiro Caio Zampieri, em torneio disputado na Alemanha.

Não menciona qual é a espécie de cobra. Sequer esclarece se o réptil era peçonhento ou não.

Aos leitores fica a sugestão velada de que cobras são todas iguais. Assim como aviões e cânceres, por exemplo, parecem ser todos iguais para a imprensa brasileira.

Cobra sem espécie
Cobra sem espécie, leitores sem informação

Renan Turra, jornalista que assina a matéria, não tem obrigação de conhecer cobras. Mas deve saber que poderia ter elucidado isso com um telefonema ou e-mail para um herpetólogo, que é o profissional de zoologia que estuda répteis e anfíbios.

Diferenças

Por que isso é relevante? Porque a capacidade de inocular veneno é o que diferencia de forma decisiva uma cobra de uma minhoca, ainda que espécies como jiboia e sucuri sejam perigosas mesmo não sendo peçonhentas.

Jornais não deveriam tratar todas as cobras da mesma forma, porque isso engana e induz leitores a conclusões equivocadas sobre os fatos onde elas estão inseridas.

Caso recente

Em novembro de 2015 vários veículos de comunicação do Brasil passaram dias fazendo matérias sobre o menino gaúcho que teria mordido uma cobra.

Entrevistaram a mãe do garoto, consultaram especialistas para explicar o fenômeno do menino não ter morrido, promoveram debates ao vivo no rádio, criaram enquetes para ouvir a opinião pública…

Alguns confiaram até na distinção técnica entre venenosa e peçonhenta para atrair sem escrúpulos audiência e cliques de incautos.

Brasil Urgente
Famoso programa sensacionalista da Band

Ao contrário do que alguns possam supor isso não ocorreu somente no programa Brasil Urgente, que é um clássico do sensacionalismo avalizado pela Band – grupo de comunicação que frequentemente evoca para si o rótulo de jornalismo sério e qualificado.

Vários outros veículos, incluindo todas as mídias do Grupo RBS, também embarcaram nessa.

Jornais, portais, rádios e TVs fizeram tudo isso para depois leitores, ouvintes e telespectadores descobrirem que se tratava de uma cobra-do-capim, também conhecida como cobra-verde, que não é peçonhenta.

Após perceberem o besteirol que estavam fomentando, a maior parte dos jornais e portais tratou de corrigir a informação em suas matérias originais (que não diziam nada sobre a espécie da cobra).

Mas o estelionato informativo já estava sacramentado. Milhões de pessoas já tinham compartilhado a incrível história do menino que tinha matado uma cobra venenosa a dentadas.

Fürth

Turra também poderia ter esclarecido em que parte da Alemanha fica Fürth, já que não está falando de Berlim, Munique, Düsseldorf, Stuttgart, Hannover, Dresden, Hamburgo ou qualquer cidade alemã amplamente conhecida.

Uma rápida pincelada sobre o lugar poderia indicar se a incidência desses répteis é comum na região.


Nota do editor

Mais cedo este post também fazia referência à segunda parte da matéria de ZH, que menciona um jacaré em um campo de golfe na Florida.

O trecho foi suprimido até que seja melhor apurada a espécie efetiva do animal que circula no vídeo em questão.

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