Desde anteontem (03) tenho acompanhado com dois corações o lançamento da campanha 2016 da Azul Linhas Aéreas para o Outubro Rosa.

A ação em si é altamente elogiável e a companhia merece todos os aplausos por estar capitaneando isso há anos, desde quando apresentou – em março de 2011 – seu primeiro ATR72 com detalhes em rosa (PR-ATB, batizado “La Ville Rose”). Hoje a Azul conta também com um E195 com pintura estilizada em rosa: PR-AYO, batizado “Rosa e Azul”.

Aeronaves rosas da Azul
Aeronaves rosas da Azul Linhas Aéreas. Fotos: Davi Guelmann (PR-ATB) e Paulo Ricardo Simioni (PR-AYO)/JetPhotos.net

O que está me incomodando não é a campanha da empresa em si, lógico, mas a preguiça e a perigosa subserviência da imprensa brasileira para com assessorias de comunicação.

Salvo pequenas edições, a maioria dos portais tem reproduzido ipsis litteris o release da Azul acerca desta campanha, sem questionar nenhum ponto e sem acrescentar dados relevantes.

Jornalismo de releases

Jornalismo de releases, para quem não sabe, é um dos mais perigosos expedientes do jornalismo. Isso cria um círculo vicioso onde o profissional de imprensa renuncia a um dos pilares essenciais do jornalismo: a apuração. Outro problema é que isso abre precedente para troca de favores.

Eu vivi a questão dos releases in loco quando era fiscal tributário. Meu departamento promovia muitas ações fiscalizatórias e dava publicidade a uma boa parte delas.

Como eu mesmo preparava os releases, chegou uma hora em que eles começaram a passar sem alterações pela assessoria de comunicação do órgão onde eu trabalhava e começaram a ser enviados diretamente a um jornal.

Até aí, tudo bem. Mas quando os releases passaram a ser publicados na íntegra inclusive no jornal, aquilo que eu estava aprendendo há anos na teoria com o Observatório da Imprensa passou a fazer sentido prático: o jornalismo de releases.

Preguiça

As Redações brasileiras ficaram muito preguiçosas de uns 35 anos para cá. E, mais do que tudo, estão extremamente negligentes.

Assessores de comunicação não deveriam fazer o serviço de jornalistas. No máximo poderiam auxiliar o trabalho destes últimos entregando a base das informações e colocando-se à disposição para esclarecimento de dúvidas. Mas na prática não é isso que tem acontecido nas Redações, onde releases estão seguindo para publicação tal qual chegam.

Jornalistas-robôs

Apesar de terem a mesma formação, nunca é demais lembrar que assessores de comunicação atendem aos interesses da empresa ou órgão para o qual trabalham. Já os jornalistas deveriam atender aos interesses da sociedade, não de A ou B – embora se saiba que no Brasil isso é uma quimera.

Nunca se deve publicar o conteúdo literal que um órgão ou empresa envia sem fazer reparos ou adendos, porque isso acaba estabelecendo uma relação de confiança que é maléfica ao jornalismo e, principalmente, aos leitores.

O fato é que quando percebi o formato que agradava ao editor do jornal eu passei a produzir os releases sempre no mesmo tom. E dali em diante esses releases nunca mais tiveram uma vírgula sequer alterada.

No nosso caso jamais inventamos números ou distorcemos informações. Mas tenho certeza que se tivesse feito isso os releases teriam sido publicados da mesma maneira, porque certos dados são de difícil compreensão para jornalistas e porque uma relação de confiança estava selada.

Fontes

Certa vez uma já falecida editora de economia de um dos principais jornais do país me ligou para pedir “informações quentes” do setor aéreo, depois que corrigi uma informação que ela havia publicado acerca de uma mudança no quadro administrativo da Gol Linhas Aéreas.

Fonte jornalística

A jornalista não me conhecia. E sequer perguntou se eu trabalhava no setor ou não. Mesmo assim queria me usar como “fonte”.

Isso, por óbvio, já entra em outro tema espinhoso do jornalismo: as fontes. Estou mencionando o fato apenas para que todos tenham noção de como funciona o jornalismo brasileiro – e o porquê dele ser tão pouco confiável.

Modus operandi

Sempre desconfiem de jornais e portais que apenas republicam, ou publicam com reparos mínimos, releases de órgãos públicos ou empresas privadas.

Hoje podem estar fazendo isso por uma boa causa – a campanha contra o câncer de mama, por exemplo. Mas, e ontem? E amanhã? Jornalismo de releases pode ser chamado de várias coisas, menos de jornalismo.

No obscuro mundo das Redações brasileiras algumas coisas não acontecem exatamente da forma como a maioria imagina.

Como entusiasta da aviação, e apoiador incondicional de causas femininas, estou feliz pela nova campanha de Outubro Rosa da Azul e pelo suporte de todas as entidades que se engajam na luta contra o câncer de mama.

Mas como observador de imprensa devo dizer que mais uma vez estou decepcionado e envergonhado pela mídia que temos nesse país.

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